Desde o ano passado tenho me dedicado a escrever sobre O Jeito Brasileiro de Atender e, portanto, saio às ruas observando como são feitos os atendimentos em lojas, restaurantes e nos comércios informais. De tomadores de conta de carros às vendedoras muito sofisticadas, os brasileiros e seu jeito de atender têm sido meu alvo constante.

 

Só que, nesse exercício da observação do Brasil e de seu povo, acabei me tornando mais sensível a como somos e como nos comportamos e, talvez seja piegas o que penso/sinto com isso, mas, a cada dia tenho mais alegria de ter vindo para essa terra em minha atual “encadernação”.

 

Ontem mesmo vivi uma das mais cotidianas e surpreendentes coisas que fazem um brasileiro da classe média: andei de ônibus. Trabalho relativamente perto de casa, mas, diante do perigo de se sair a pé depois que anoitece e ainda, pela dificuldade em estacionar o carro, andar de ônibus seria a melhor opção nas grandes cidades. Acontece que, infelizmente, as linhas de ônibus parecem ser poucas para o tanto de gente que precisa delas. São centenas, milhares de trabalhadores loucos pra voltar pra casa, pros filhos, pra novela que promete em mais um de seus capítulos. Além de demorarem a passar, vêm lotados, de tal forma que nos perguntamos o porquê de o motorista insistir em parar.

 

E lá fui eu para o ponto, bem perto de casa. Talvez por ser véspera de feriado, o transito estava mais assanhado do que o comum. E aí tinha muita buzina e carros e motos e gente impaciente… No nosso ponto, um senhor absolutamente silencioso, uma mãe com uma filha, uma secretária do lar, uma vendedora e uma designer. Todos nós, cada um com seu destino, ficamos por ali cerca de trinta minutos aguardando pelo 2101. Tempo suficiente para que eu soubesse e partilhasse com cada um deles, a história de quem somos.

 

A mãe com a menina mesmo, estava impaciente pelo fato de que a loja em que iria com a filha na Savassi poderia fechar antes que chegassem e, a urgência de estar lá até as 19h, vinha do fato de que, no sábado, a menina seria anjo na coroação do mês de Maria. E aí, juntas falamos da cor do vestido, da asinha e das lembranças do tempo de coroação.

 

A designer – muito bonita e moderna – com um cabelo e roupas retrô e um batom vermelho lindo mesmo – jurou me conhecer de algum lugar. E, sob a áurea de uma simpatia instantânea, trocamos cartões, afinidades, falamos de trabalho e juramos nos ver dia desses em um café da cidade.

 

A vendedora não entrou no nosso bate-papo. Estava atenta às músicas que tocavam no celular. Pelo olhar distante, tenho pra mim que estava apaixonada. Já o senhor que também estava ali, esse não tinha cara de quem estava passando por estado maior de amor, mas sim, de preocupação com o tempo e com as coisas da vida e do mundo.

 

A secretária do lar – ela mesma se intitulou assim – foi a que chegou por último. Estava vindo do trabalho onde realiza, além da limpeza, afazeres como pagamento de conta e compras daquilo que falta na casa. Ela contou orgulhosa da pessoa que a contrata, distinta senhora do bairro, que confia nela e que a tem em altíssima estima, em função de sua excelência no cumprimento das tarefas. Ela foi a última a chegar no ponto de ônibus, mas alertou a turma toda sobre a importância de não pegarmos o carro que estava vindo, mas sim, o próximo, um pouco mais vazio e já avistado por ela no quarteirão de cima. Uma dica e tanto!

 

O ônibus enfim chegou. Entramos todos! Ainda que mais vazio, estava apertado demais! Eu, que sou muito pequena, não conseguia segurar nas barras laterais – já ocupadas por outras mãos – e nem na barra superior – alta demais para mim. E aí é quem vem a outra agradável surpresa. Mulheres já sentadas e as outras que se seguravam nas laterais, numa solidariedade absolutamente gratuita e inesperada, resolveram e me avisaram que eu podia ficar tranqüila que, enquanto eu estivesse no ônibus, elas iriam me segurar. E foi assim, de fato. A cada arrancada dada pelo motorista, as moças me abraçavam com tamanha destreza e intimidade. E, novamente, dividimos o calor, a amizade e a cumplicidade de estarmos juntas, de sermos iguais em tudo!palestrante-maria-flavia-bastos-o-solidariedade-ainda-que-com-prazo-de-validade

 

Chegou meu ponto. Hora de descer. Agradeci e me despedi de cada uma das pessoas com que partilhei aquele tempo. É possível que nunca mais nos vejamos. É possível ainda que nos vejamos outras vezes. E ainda que nos esbarremos em outros lugares, é muito difícil que nos lembremos uns dos outros. Mas é certo que essa solidariedade, ainda que com prazo curto de validade, faz de nós pessoas melhores e mais felizes – ainda que por um tempo.

 

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