Em 2011, fomos eu e meu marido à Natal, numa viagem a passeio, e tivemos a oportunidade de conhecer o modo de viver das pessoas da cidade principalmente observando o artesanato local. Aliás, vale a oportunidade de dizer que, no Brasil, por meio do artesanato (que tem ganhado cada dia mais força), há locais que costumam guardar experiências magníficas de empreendedorismo social, economia solidária, já que seus espaços urbanos (bairros, cidades) apresentam alto potencial criativo. O artesanato tem proporcionado, em muitos locais do país – como no caso da capital potiguar –, geração de renda, protagonismo e inclusão social, além do desenvolvimento sustentável, o que pode garantir, para o futuro das novas gerações, a preservação dos nossos valores culturais e ambientais.Natal - Rio Grande do Norte - Maria Flávia Bastos - Atendimento ao Cliente

Na orla da Praia de Ponta Negra, um dos locais mais visitados em Natal, os turistas se espremem nas feirinhas e lojas, numa busca frenética e entusiasmada por produtos artesanais para presentear os familiares, colegas de trabalho e amigos que não tiveram a mesma oportunidade de desfrutar das lindezas da cidade. (E sempre tem aquela caneca ou camiseta típica – “estive em… e lembrei-me de você” – que me soam quase como sarcasmo!).

Entramos, portanto, como turistas que éramos, em várias dessas pequenas lojas. E, com as mãos cheias de sacolas, nós nos encantávamos com a beleza do artesanato tão único do Nordeste brasileiro, bem como pela delicadeza dos atendentes e artesãos.

 

maria flávia bastos - atendimento ao cliente

 

Vimos na vitrine de uma loja uma peça em madeira que fez com que meu marido se lembrasse de um artista mineiro, o GTO – Geraldo Teles de Oliveira. O dono da loja, Mário, também era o artesão e da porta mesmo soltou: “Cês são mineiros, né?”. E nós, ainda que maravilhados com a simpatia local, ao encontrar alguém de nosso estado, sentimos afago e pertencimento. Se as pessoas de lá sempre tinham ótimas histórias para partilhar, imagine um mineiro com alma nordestina!

Nós (entusiasmados): – Somos mineiros sim, de Belo Horizonte! E você, vive aqui em Natal há quanto tempo?
Mário (com cara de preguiça): – Há tempo demais… Aqui não é essa maravilha toda, não!
Nós: – Mas o clima é maravilhoso, as pessoas também! E as praias? E a comida? Tão pouca violência, né?
Mário: – O que é isso! Aqui não é essa maravilha toda, não! O calor acaba com a gente! Da comida, já enjoei. Eu não gosto de praia e, quando tenho tempo de ir, acho tudo muito caro!
Sem parar de falar, ele continuou: – E os turistas, então? Um povo metido, querendo que a gente fique rindo o tempo todo… Trabalhar com turista não é essa maravilha toda, não!

Palestra atendimento ao cliente - Maria Flávia Bastos - Não é Essa Maravilha
Nós (perplexos): – Olha, Mário, estamos apaixonados por Natal…
Mário (sem prestar atenção na gente e falando compulsivamente): – Carioca é antipático! Paulista quer ser dono de tudo! E os mineiros, então? Ninguém que chega aqui me conta que mora na zona norte, leste ou oeste de Belo Horizonte. É tudo morador do Sion, do Mangabeiras! Gente nenhuma é essa maravilha toda, não! Quer ver só? Vocês são de que bairro em Belo Horizonte?
Nós (que moramos no Sion, constrangidos): – Moramos no Carmo…
Mário (com cara de desprezo): – Sei… Mas Belo Horizonte também não é essa maravilha toda, não! Muito violento!!

Logo entendemos que Mário era daqueles que não tinha lá muito prazer pelas coisas. Aquela visita nos marcou.

Em 2014, voltamos a Natal. Novamente desfrutamos da cidade, das praias, da comida e do artesanato. Resolvemos ir em busca de Mário e vimos que a loja dele, diferentemente de outras tantas que conhecemos, fechou.

Infelizmente, nem a loja, nem o dono eram essa maravilha toda, não!

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