O ser humano é de natureza um animal carente! Precisamos de atenção, de uns dos outros, de calor, carinho e afago. E quando o caso é atendimento, esse cafuné emocional é, sem dúvida, o diferencial de uma compra de momento ou da fidelidade eterna a uma marca ou a um estabelecimento.

 

Atender bem é entender as sábias palavras de Cazuza que bem musicou toda a carência humana ao dizer que “raspas e restos” nos interessam e que, a alegria pode sim, vir das “pequenas porções de ilusão” ou das “mentiras sinceras”. Senão vejamos:

 

A comida é, sem dúvida, o centro da minha família. Se for para comemorar, comemos.  Para afogar as mágoas, fazemos um café – dos bem completos – e choramos juntos. No caso de doença, então, é certo: comer será, sem dúvida, o melhor remédio…

 

E crescemos assim, fazendo das nossas mesas, um templo dos bons e maus momentos mas, sobretudo, um espaço que nos reúne em torno do que somos: uma família que acolhe os de dentro e os que vêm à nossa ceia. Como bem diz meu marido, os Diniz Bastos são os que mais falam, os que mais comem e os que mais riem… E seguimos nessa exuberância.

 

Se somos fartos no comer, somos também no falar, no gesticular e, claro, nas circunferências – tão fartas como nossas mesas. Vovó era daquelas matronas: bonita e com o bumbum empinado. As filhas dela – onde se inclui minha mãe – nasceram e cresceram com o estereótipo da brasileira – pernas grossas, cintura fina, altas e lindas (uma coisa meio Sônia Braga, sabe?)!

 

Eu e minhas primas – que também herdamos os genes de nossos pais – não somos todas a la Braga, mas temos todas, como nossos pais, a tendência  fácil de ganhar peso. Muitas de nós vivem numa constante luta contra a balança. Eu mesma já estive magra algumas vezes, virando, inclusive, sócia vitalícia do Vigilantes do Peso. Dieta é comigo mesmo! Fiz a da lua, a da sopa, da USP, de Beverly Hills, das Estrelas… Conheço das técnicas milenares orientais às mais ousadas e baixas teorias milagrosas que trazem o corpo perfeito em três dias. Nutricionistas, acupunturistas, homeopatas, massoterapeutas, gurus, magos, jejum e reza brava sempre fizeram parte do meu cotidiano em busca da quase impossível, mas sempre desejável magreza.

 

Entendendo que as “mentiras sinceras” interessam e fazem feliz, a história de hoje é sobre o peso da alma e do corpo – sobretudo, o peso da língua ou da fala. É, portanto, sobre o peso do que somos, do que queremos ser e o mais relevante aqui, na maneira sincera – desnecessária e pesada – de ser dos comerciantes brasileiros… Em outros casos, abordei a ideia dessa informalidade – que às vezes beira a grosseria – do atendente brasileiro. E quando o quesito é o peso, a medida é exagerada. Talvez não seja uma crônica, mas um desabafo, um despeito ou um expurgo.

 

Numa loja perto de casa, ao pegar um vestido, fui surpreendida pelo olhar de raio x – desesperançoso e cínico, da vendedora que soltou um: _não tem  o seu número! Como assim? E se não fosse para mim? E se fosse um presente? Venda perdida, ódio da loja, agouro eterno!  E esse mesmo comentário foi a mim repetido em outros contextos, alguns seguidos de recomendações de medicamentos ou de um personal.

 

E teve a atendente que me perguntou se era menino ou menina!  Esse dia, fiquei tão sem graça em desapontar a moça que alisou minha barriga e me olhou de maneira contemplativa, que preferi ir embora. Fui em busca de uma loja onde meu estado não fosse a coisa mais interessante. E, claro, nunca mais voltei…

 

E foram vários desses: comigo, com minha mãe, minhas tias e primas. Todos contados em risadas e choros em volta de uma mesa. Mas a melhor de todas, me aconteceu na semana passada. Dessa vez, a “super sincera” ou “sem noção”, não estava no balcão de uma loja, mas na equipe que organizava um evento em que palestrei (o que não deixa de ser uma função ligada ao atendimento).

 

Ao final da minha fala, ela veio logo me abraçar. Muito contente, disse que havia amado a palestra, mas, que importante mesmo era dizer que tinha tirado várias fotos minhas de corpo inteiro. Num misto de medo e simpatia, fiquei esperando o que vinha daí, quando ela continuou…

 

_ Menina, tirei fotos suas para mostrar à minha sobrinha que está na fila da bariátrica. Vendo você, poderei dizer a ela: bariátrica pra que? Porque olha, Maria Flávia, você é gorda, mas é bonita, bem vestida, tem a autoestima lá em cima e blá, blá, blá…

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Parei de ouví-la… Pensei na beleza de vovó e de sua fartura nos quadris. Pensei nas gostosuras de mamãe, nos quitutes de festa de tia Dadá, no bolo de fubá de tia Fatão, na canja de tia Bela, da chease cake perfeita que só minha irmã faz… Decidi, nesse momento – e para sempre –  que permanecerei de dieta, mas uma dieta das palavras. Ao falar com os outros, quero ser um pouco menos sincera, mas, muito mais amorosa, delicada e leve.

 

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