Quem me conhece sabe que eu adoro cortar cabelo. É quase um evento, sabe? A ideia da mudança, da liberdade, e o certo misticismo de que daqueles fios saíram o que não está tão bom me traz a melhor das sensações. E eu sou daquelas corajosas, intempestivas,  nunca tive medo de pintar, cortar e experimentar. Daí, talvez, o motivo pelo qual eu tenha uma coleção de boas – ou péssimas – histórias cabeludas para contar. Esta, em especial, não é somente uma história a respeito de cortes de cabelos, mas um caso sobre atendimento, cuidado, ou melhor, um caso sobre como a falta de um cafuné pode deixar alguém à beira de um ataque de nervos…

 

Pois bem! Certa da necessidade – quase vital – de mudar o cabelo, liguei para minha cabeleireira, uma moça pra lá de moderna e competente que, entre idas e vindas, trata há tempos de minhas madeixas. Só que ela não estava lá… Estava longe, viajando para a Austrália. Mas a urgência inexplicável de uma pessoa em busca de suas “certezas” é o que, às vezes, pode pôr tudo a perder…

 

Totalmente absorvida pela minha ansiedade, liguei para meia dúzia de pessoas, que me deram suas recomendações “cabelísticas”. Uma dessas dicas me pareceu uma aventura rumo à elegância, afinal, foi dada por minha cunhada – que, como sua prole linda, tem cabelos esvoaçantes e belos, o que me fez crer numa mudança pra lá de positiva.

 

E lá fui eu. Cheguei numa casa linda, de decoração imponente, onde uma secretária – com um “cabelitcho” daqueles – me levou a um quarto tão lindo quanto a casa e me entregou um roupão preto, com as iniciais do cabeleireiro. Era de seda e me abraçou de tal forma que, ali, tive a certeza de que minha cabeça não era mais minha. Agora, pertencia ao profissional responsável por pensar nos detalhes delicados que, decididamente, fariam de mim a moça com o corte mais bacana da cidade.

 

Já sentada na cadeira, de frente ao espelho, com café, suco e biscoitinhos à mão, vi chegar de forma cinematográfica o artista que trataria meu cabelo. Ele me abraçou, elogiou meus cabelos modernos, perguntou o que eu queria (e aí combinamos, por meio de fotos minhas e dos álbuns dele, o que iria ser) e disse: “– Prepare-se para a transformação”. Ele me virou de costas e, em menos de vinte minutos, me voltou ao espelho para que eu visse a sua obra-prima concluída.

 

Completamente em pânico, vi que havia me transformado numa mistura do Pica-Pau com o Neymar. Sim, completamente moicana!!! Quando disse a ele que não era bem aquilo que havia pedido, ele me voltou contra o espelho de novo e disse que ainda não havia acabado. Mexeu de cá e pra lá, de lá pra cá, preparou potinhos com cremes, “tesourou” meu cabelo mais um pouco, pegou pentes e fez e aconteceu na minha cabeça. Nessa hora, meu corpo já não estava mais relaxado, e aquele roupão, antes tão confortável, parecia apertar a minha silhueta.

 

Ao final, eu me enxergava como “a moicana de cabelo acaju-púrpura”. Ou seja, estava HOR-RO-RO-SA!!! E arrasada. Repeti que não havíamos combinado aquilo, e aí é que vem a coisa toda: o rapaz mudou de postura, bem como sua secretária, antes charmosa e delicada. Os biscoitos, o café e o suco me foram tomados. Os dois profissionais, juntos, pareciam para mim personagens inquisidores de um filme de terror. Sem muita conversa, levaram-me até a recepção e, sem olharem muito para mim, me cobraram R$ 600,00 (R$ 100,00 do corte + R$ 200,00 de uma tintura + R$ 300,00 da tintura para “consertar a anterior”).

 

Quando cheguei em casa, meu marido quis saber de que guerra eu havia voltado! Ficou absolutamente chocado com o que fizeram no meu cabelo. E repetia “– Não é um cabeleireiro, é um Exu Sete Tesourinhas”. Ainda desesperada, mas até achando alguma graça no meio daquilo tudo, fui em busca de ajuda.

 

Havia uma moça, na vizinhança de casa, que pintava meu cabelo – também há anos.  Depois de dez anos frequentando o salão, fazendo por lá os serviços rotineiros (depilação, unhas, escova, luzes e afins) e, sobretudo, pela confinça e amizade de anos, pedi socorro para que meu cabelo – ainda muuuuito curto – ao menos voltasse para a cor natural. Contei à equipe de lá toda a epopeia e sofrimento pelos quais havia passado, marcados pela injustiça e falta de sensibilidade por parte daqueles que haviam me atendido. Imediatamente, a equipe disse que eu poderia ficar tranquila… Entretanto, qual não foi a minha surpresa quando a cabeleireira deu “dois picotinhos pra acertar” (palavras dela), pintou o pouco que me restava do cabelo e me cobrou mais R$200,00…

 

No frigir dos ovos, essa história me aponta não somente um caso de perda financeira devido a uma cobrança abusiva por um serviço mal prestado, mas, sobretudo, como é séria a perda da confiança e a falta de cuidado de um profissional com seus clientes. Atender bem é entender que a rotina da atividade consiste numa conquista diária. Às vezes, o profissional nem ganha tanto dinheiro, mas garante o retorno de seu cliente, que trará, certamente, outros tantos, conferindo ainda mais credibilidade ao negócio. Independentemente da área, precisamos, como clientes, de afago no atendimento e nunca (jamais, em tempo algum!) de um “jeitinho” que engana, fere e faz com que não retornemos nunca mais.

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